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Sector europeu das utilities 30/03/2009
Nos últimos anos, as utilities causaram entusiasmo
em Bolsa (+45,9% desde o início de 2003, enquanto o DJ Stoxx 50 caiu 24,3%).
Presentes em inúmeras carteiras, as acções deste sector defensivo são por vezes
comparadas a obrigações, devido ao rendimento do dividendo ser “garantido”. Uma
perspectiva errada que a crise actual poderá corrigir.
Bases sólidas As
empresas do sector utilities (água, gás, electricidade, tratamento de
resíduos, etc.) desenvolveram-se bastante nos últimos anos. Para sustentar esse
crescimento, recorreram com frequência ao crédito. O risco para o investidor era
limitado, porque se tratavam de empresas em situação de quase monopólio, cujas
tarifas eram conhecidas com antecedência. E a escalada do preço da energia
(petróleo) permitiu-lhes subir os preços.
A actividade gerava uma liquidez crescente e regular,
relativamente previsível. Confiantes nessa liquidez, asseguraram quotas de
mercado no território nacional antes de se desenvolverem, mais recentemente, no
estrangeiro. Nomeadamente, através de fortes aquisições: compra da British
Energy pela EDF, compra da holandesa Essent pela RWE, compra de actividades da
Constellation pela EDF, fusão entre a GDF e a Suez. Mas o accionista não foi
esquecido, recebendo quase 50% dos lucros via dividendo (National Grid).
A crise Apesar
das suas vantagens e do crescimento regular, as utilities foram afectadas
pela crise.
· A maioria das
empresas do sector financiou o crescimento externo dos últimos
anos através de endividamento. Com a crise tomou-se consciência
da dívida: custos financeiros mais pesados, créditos refinanciados com condições
mais desfavoráveis. Por exemplo, a E.ON viu os custos dos juros duplicarem,
principalmente devido ao refinanciamento.
· A crise
também afecta a capacidade das empresas gerarem liquidez, embora isto
seja minimizado pela suspensão da compra de acções próprias e pelo adiamento dos
investimentos. Além disso, a subida dos preços do gás e da electricidade já não
está na ordem do dia, devido à forte queda do preço do petróleo. Porém, a longo
prazo, pensamos que os preços do gás e da electricidade continuarão a subir.
Por outro lado, a crise económica provocou um recuo da produção
industrial, bem como o encerramento de fábricas (elevado consumo de energia).
Isso traduz-se numa quebra do consumo. Por sua vez, a actividade ligada ao
tratamento de resíduos (dependente da indústria) também está em claro recuo,
face à quebra da actividade das empresas.
· Os poderes
políticos tomam medidas para melhorar o poder de compra dos
consumidores. Em França, o governo anunciou um corte de 10% no preço do gás a
partir de 1 de Abril. Como aconteceu na Bélgica, poderão ser impostas taxas
suplementares às empresas.
Todos estes aspectos pesam sobre a rentabilidade: as
utilities publicaram recentemente os resultados de 2008, que recuaram
bastante (-82% na E.ON; -40% na EDF). O mesmo se passou na liquidez gerada. E
2009 anuncia-se igualmente muito difícil para o sector.
Accionistas
penalizados? A continuação da política de remuneração está no
centro das estratégias dos intervenientes do sector, que pretendem distribuir
50% dos lucros (objectivo muito ambicioso).
Para tal, reduzem os custos de produção (GDF Suez anunciou um
plano que prevê uma redução de 1,8 mil milhões de euros), alienam activos (E.ON
tenciona encaixar 10 mil milhões de euros) e cortam nos investimentos. Deste
modo, vai ser difícil, no contexto actual, uma empresa como a E.ON distribuir
entre 50 e 60% dos lucros, ao mesmo tempo que procede à alienação de activos no
montante de 10 mil milhões de euros.
O aumento de capital continua a ser um meio para as empresas
diminuírem a dívida ou obterem liquidez. Esta foi a via escolhida pela Enel,
após a compra de 25% da Acciona, com vista a encaixar 8 mil milhões de
euros.
Pela nossa parte, prevemos que algumas empresas serão
forçadas a diminuir o dividendo. Com as incertezas associadas à
recessão actual, utilizar as reservas em dinheiro para pagar dividendos,
enquanto há dificuldades em gerar liquidez para reembolsar a dívida, não nos
parece sustentável. No entanto, intervenientes como a National Grid poderão
manter o nível do dividendo de 2008 em 2009 e 2010.
Dada a necessidade elevada e imediata de liquidez, estimamos uma
suspensão da compra de acções próprias no conjunto do sector em 2009 e 2010.
Conclusão O
sector das utilities mantém as perspectivas de crescimento a longo prazo:
necessidades energéticas, desenvolvimento das energias renováveis, tratamento de
resíduos, depuração das águas. Mas o crescimento tem um preço em Bolsa e
globalmente o sector está correctamente avaliado.
Os nossos conselhos de compra limitam-se à portuguesa
EDP Renováveis, à italiana Enel e à britânica National
Grid. Apesar da recessão económica, estas empresas têm bom potencial de
desenvolvimento, são menos dependentes da conjuntura e estão baratas.
Já a EDP apresentou sólidos resultados em 2008 mas a acção está
correcta, tal como a REN. Pode manter ambas.


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